SOLITUDE E O ÚNICO TRAÇO DO PINCEL

 

‘Solitude é estar com posse de minha inteira liberdade [1]’

 

Cecília Dequech, artista e ser humano único constrói seu caminho personalíssimo com dedicação exemplar. Mineira nascida em Ouro Preto, cidade símbolo de inconfidências e do barroco mineiro, começou a ‘fazer arte’ ainda cedo, ‘grafitando’ as paredes internas de sua casa, mas estimulada pela mãe passou a utilizar lápis, papel e a frequentar os primeiros cursos livres nos festivais de inverno de sua cidade natal. Aluna de Jarbas Juarez, Álvaro Apocalypse, José Alberto Nemer e Jair Silva, entre outros, foi no Festival de Inverno de Ouro Preto que conquistou um primeiro prêmio na categoria Desenho.

 

Destes tempos idos algumas décadas se passaram, também passaram certas paixões e várias constatações, como a de que através do Desenho, da Cerâmica e da Pintura o objetivo era alcançar a Grande Arte.

 

Estudou o que pôde e o que estava disponível em cada período de sua vida, mesclada aos anos em que trabalhou na empresa Vale do Rio Doce. Ao longo deste percurso definiu do que gostava e do que não gostava - Da Vinci, Gaudí, Berth Morisot, Almeida Júnior e Adriana Varejão, de sua primeira fase, foram algumas de suas preferências. Do que ela não gosta? Perguntem a ela.

 

Depois de passar por experiências, métodos, regras e orientações, optou pela dedicação à Pintura - a pintura pura: arte X técnica X filosofia - e após muito procurar chegou ao mestre pintor Luiz Solha, a quem atribui as sutilezas técnicas da atual série, não as escolhas dos temas de viés contemplativo, que assume em sua poética de mineira simplicidade.

 

O título geral de ‘Solitude’ [2] para estas pinturas a óleo sobre tela – em tamanhos que variam entre 50 X 60, 50 X 70 e 60 X 80 cm - é apropriado para este seu momento e para o modo como ela produz sua arte, com esmero e convicção.

 

‘Solitude’ é diferente de ‘Solidão’. Para Cecília Dequech, ao escolher este título para a série, quis referir-se ao momento do prazeroso recolhimento do sábio (que Luiz Solha associa à ataraxia, própria da filosofia dos céticos e estóicos da Grécia Antiga), da observação do esteta, do fazer do artista, do refletir do pensador e que (em seu caso) se traduz no ato de captar mentalmente, com emoção, através da câmara fotográfica, um instante belo ou tocante aos olhos do artista, do poeta, do arguto observador. Esse registro de espontaneidade é levado ao silêncio do atelier onde ela inicia a delicada operação do ato de pintar, velando o que não interessa, destacando em sensíveis pinceladas o que elege como elementos fundamentais ao seu discurso poético.

 

Para alcançar esses resultados, Cecília estudou também técnica fotográfica na intenção de registrar instantaneamente e com qualidade as cenas que a comovem – o casal de idosos caminhando, solidários, em uma praia deserta; crianças brincando em um parque com pipa e bicicleta; o homem sentado, lendo, em um ‘banco com encosto’ num parque urbano; crianças distraídas à beira de uma piscina; a peregrina contemplando a imensidão do vazio. No processo que antecede a atividade pictórica, elege flagrantes do seu cotidiano, cenas domésticas, momentos de viagens, cidades e espaços por onde passa. As imagens escolhidas são levadas ao atelier e ali a artista as insere num outro contexto onde novamente impera sua solitude, sozinha com os instrumentos e acessórios de pintura, só com seus sentimentos, escolhas, preferências. Aí ela constrói suas telas, fixando as figuras eleitas num novo universo, o universo restrito e infinito da tela, exclui elementos indesejáveis, cria e redimensiona os fundos em pintura aveludada que remete ao que a pintura clássica chinesa chama de ‘o único traço de pincel’.

 

Os procedimentos e as condições mentais que regem esta pintura obedecem ao ritual e às condições características da pintura a óleo, que diferem em vários aspectos (ritmo, extensão, revisão, elasticidade) da ligeireza de secagem da tinta acrílica, permitindo tratamento mais reflexivo devido ao tempo maior exigido para a secagem, que permite que o pincel ‘caminhe’ com a flexibilidade do óleo num esticar, esperar, retomar, em prática que confere à pintura a condição de um processo meditativo.

 

As pinturas ‘Solitude’ de Cecília Dequech, são singelas jóias de sensibilidade e reflexão no mundo da voracidade digital e das mídias sociais. Através destes registros de situações simples, desenvolvidos pictoricamente em ações de alto virtuosismo técnico, a artista consegue comover leigos e especialistas.

 

As obras desta fase são de dimensões modestas, contidas como fotos de um álbum de família, mas guardam em si o Universal da História da Pintura, com escopos, veladuras, pentimentos, demãos em camadas, pincéis secos ou umidificados e a constante busca do ’Único Traço de Pincel’ [3].

 

A pintura de Cecília Dequech caminha a passos seguros para se transformar em arte de qualidade a ser apreciada por todos os públicos e preservada em coleções e instituições importantes, como exemplo de uma técnica aprimorada e de uma sensibilidade em extinção, que só mesmo a Grande Arte pode salvar.

 

Abril de 2014

 

Paulo KLEIN

 

Crítico e Curador Artes Visuais

 

APCA - ABCA - AICA

 

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[1] DEQUECH Cecília – ‘Solitude’, texto da artista sobre esta série de pinturas.

[2] Solitude é, segundo o Wilkipedia, o estado de privacidade de uma pessoa, não significando, propriamente, estado de solidão. Pode representar o isolamento e a reclusão, voluntários ou impostos, porém não diretamente associados a sofrimento.

[3] RYCKMANS Pierre ‘As Anotações Sobre Pintura do Monge Abóbora-Amarga’ – Tradução Carlos Matuck - Editora Unicamp 2010 – “O Único Traço de Pincel é a origem de todas as coisas, a raiz de todos os fenômenos; sua função é manifesta para o espírito e oculta no homem, mas a maioria a ignora. É por isso que se deve estabelecer a regra do Único Traço de Pincel”.